terça-feira, 21 de janeiro de 2014

QUASE PASSAM POR CIMA DE MIM

                                               O ATOR FAMOSO

         Quando resolvi escrever as Histórias do Quase, achei que a do dardo lá no colégio, tinha sido o primeiro “Quase” importante de minha vida. Mas  lembrei de outro quase que não foi tão por pouco, mas também foi quase.   Então lá vai, uma estória que se passou em 1954... faz tempo, não?!
         Meus simpáticos e desocupados leitores devem estar imaginando que nessa época eu era bem jovem. Com certeza... eu era um menininho, só não vou contar minha idade, porque... sei lá, estou quase perdendo a conta!
         A trepidante estória que vou contar passou-se em Salvador, durante um congresso de cardiologia. Eram eventos muito badalados, patrocinados por grandes laboratórios farmacêuticos e outras entidades que davam bons descontos aos congressistas, com farta programação social para distrair as famílias dos médicos participantes.
         Meu pai já era um cardiologista bastante conhecido, e lá fui eu no mês de julho, durante as férias, com papai e mamãe, numa viagem inesquecível, cheia de surpresas e eventos inusitados.
         O primeiro lance, foi a viagem de navio, que ainda era um meio de transporte bastante utilizado na época. Os grandes aviões quadrimotores eram uma novidade, mas uma viagem num navio de passageiros era algo muito divertido e charmoso, desde que não fosse lá na terceira classe.                
            Existia uma empresa portuguesa, a Companhia Colonial de Navegação que tinha dois lindos transatlânticos, feitos na Bélgica, que faziam a Rota do Ouro - Lisboa, Rio, Santos, Buenos Ayres - . Eram o Vera Cruz que nos levou, e o Santa Maria, que nos trouxe. Anos depois, o Santa Maria ficou famoso por ter sido sequestrado por rebeldes portugueses, comandados pelo capitão Henrique Galvão, que virou herói.
         A primeira coisa engraçada ocorreu, logo após a partida. Ao que parece a classe em que viajávamos não tinha camarotes para três pessoas, e assim meus pais ficaram numa cabine e eu fui parar numa outra com um senhor bem velho. Evidentemente nem eu gostei de ter que passar três dias num quarto com um velho e provavelmente menos ainda o pobre ancião que se viu na companhia de um garotinho... Quando entrei na cabine, o velho já tinha escolhido a cama, o pedaço do armário, o lugar de tudo e eu lentamente enfiei minha malinha nalgum canto e saí para dar uma volta e ver o fabuloso navio.
         Deslumbrado pelo ambiente naval fui perambulando, entrando por corredores, abrindo portas com estranhas fechaduras e grampos para prendê-las abertas, corredores inclinados, janelas redondas, cheiro de navio por toda parte. Tombadilhos de cimento apoiados em estruturas metálicas, passarelas de madeira, escadas inclinadíssimas... Lá ia eu, com uma curiosidade infinita, passeando de lá para cá, quando finalmente cheguei no rabo do navio... a popa. O fim de tudo. Aquela esteira de espuma e a terra se afastando já distante. Nossa!... se alguém cai no mar já era... Havia mais umas pessoas apoiadas na amurada, e a voz no alto falante insistia em dizer para um garoto perdido da classe B (acho que era isso) procurar seus pais.
         Fiquei pensando... como alguém consegue se perder num navio?? é só ir pra frente, ou pro lado... sempre aparece alguém, aí é só perguntar... E lá fiquei hipnotizado por aquela montanha de água se fechando depois da passagem daquele barco gigantesco.
         Finalmente voltei para a companhia do velho, e assim que entrei na cabina ele falou num linguajar do qual mal consegui decifrar metade, algo que ser referia a eu encontrar meus pais numa sala que ele tinha anotado num papelzinho. Acho que eu era bem espertinho, por que cheguei num instante no tal lugar, parecia uma sala de leitura, ou uma pequena biblioteca e assim que minha mãe me viu, deu um grito contido de alegria.
         - Puxa! Onde você se enfiou. Não ouviu a gente avisar no rádio?
         - No rádio?!
         - É.. eles avisaram para o menino perdido vir para cá, já faz um tempão! Por que você não veio??
         - Ué!... Eu não estava perdido! Achei que não era comigo!!!
         Mas a grande surpresa mesmo foi no primeiro jantar. Ao entrarmos no chiquíssimo salão, cheio de espelhos e corrimões impecavelmente dourados, reparamos que havia algumas pessoas famosas além dos médicos conhecidos. Para entusiasmo de mamãe, na nossa mesa estava nada mais nada menos do que o popularíssimo ator Anselmo Duarte, que viajava sozinho. E minha mãe, que adorava artes, música, teatro, cinema e já naquela época conhecia um monte de artistas, entabulou o maior papo sobre... sei lá, um diretor de cinema, um autor dramático, o compositor, e a arte... E o famoso ator muito simpático e sorridente ia levando o papo numa boa. Eu achei fantástico poder conversar com um sujeito famoso como aquele, que acabara de fazer um filme que eu tinha visto no cinema.
         Bem, meu leitor com menos de 40 anos talvez não saiba, mas cinema na época era muito mais popular do que hoje. Em São Paulo havia dezenas de cinemas espalhados por todos os bairros. Eu mesmo morava numa rua onde havia um cinema a uns dois ou três quarteirões e o programa dos sábados e domingos era assistir uma fita. As mocinhas como minha irmã e minha prima, tinham as paredes dos quartos forradas de fotos de artistas e entre elas estava lá a foto do nosso companheiro de mesa! Ali!!... batendo papo com minha mãe e me perguntando coisinhas que os adultos sempre perguntam...
         E assim grudei no homem, e virei o amiguinho do famoso Anselmo Duarte na viajem de navio para Salvador!!!
         Quando chegamos em Salvador ficamos no Hotel Bahia que, nas turvas imagens que sobraram na minha memória, ficava numa praça muito grande e arborizada, mas bastante movimentada. Era um prédio de seus dez andares, com vários salões, anfiteatros e na entrada tinha algo parecido com um mezanino...  uma laje, naquele estilo de lajes curvas, usadas na época, onde as pessoas ficavam lendo seus jornais, revistas, batendo papo, esperando alguém...
         Acontece que, lá em Salvador, junto com o congresso de cardiologia estava rolando um festival de cinema nacional e um monte de atores famosos estavam hospedados lá, inclusive meu amigo Anselmo Duarte, e a atriz com quem fez par romântico num dos filmes que estreavam no festival... nada mais nada menos do que a deslumbrante Tonia Carreiro, com quem andei de elevador, absolutamente embasbacado!!!...
         Na frente do hotel, uma multidão absolutamente endoidecida, era contida a muito custo por cordões de isolamento, querendo ver de perto, mandar beijinhos, pedir autógrafo, tocar em seus ídolos, e havia  uma turma que se deixassem atacava mesmo.
         Um belo dia eu entrei no elevador para descer e encontrei com meu velho amigo Anselmo Duarte, que sempre me cumprimentava alegremente... Estávamos só nós e o ascensorista que desceu diretamente até o térreo. Acontece que ao sairmos do elevador a multidão viu seu ídolo e se arremessou insanamente saguão do hotel a dentro.
         Eu parei estarrecido com aquela avalanche que vinha em minha direção, mas o Anselmo, me agarrou pelo braço e praticamente me arrastou para dentro do elevador e gritou para o ascensorista.. Sobe! Fecha a porta!
         Mal deu tempo... ainda ouvimos murros nas portas e aquela gritaria desvairada...
         Quase que fui pisoteado pelas fãs do grande ator.
         No meu curriculum deveria constar. 1954 - Salvo por Anselmo Duarte – Salvador – Bahia!
         

       **Infelizmente, nunca mais encontrei com essa grande figura do cinema nacional, que foi ator em lindos filmes da Vera Cruz, como Tico-tico no fubá, onde foi Zequinha de Abreu. Fez também o papel de um advogado abolicionista, que contracenava com a lindíssima Eliane Lage, talvez a atriz mais bonita do nosso cinema.
       Anselmo Duarte dirigiu um filmaço -   O Pagador de Promessas -     baseado num texto do grande Dias Gomes,  ganhador do Festival de Cannes. Um filmaço mesmo! Vale a pena ver, ou rever!! Um filme muito bem feito!!!  Roteiro, edição, direção de ator, fotografia, música... é um marco da cultura brasileira!!!
         Anselmo Duarte morreu velhinho, meio esquecido... há pouco tempo.

         

2 comentários:

  1. Realmente, O pagador de promessas foi um grande filme e Anselmo Duarte, um grande ator. Adorei a sua história, Dario. Me fez lembrar dos anos 60, quando morei em Curitiba e era a companheira da minha mãe nos cinemas. Lembro que vi e revi vários filmes da Sarita Montiel. É por isso que gosto tanto de tangos. Abraços.

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  2. Assisti há pouco...
    O pagador de promessas AINDA É um grande filme.
    vale a pena ver!!!!

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