segunda-feira, 23 de novembro de 2015

REFLEXÕES SOBRE O INFINITO VIRTUAL (para ver no celular)

pequenas considerações sobre o infinito  

         Fazia muito tempo que não me deparava num espaço cercado de espelhos, como esse do Hotel River Park em Miami. É muito comum espelhos em elevadores, mas os do River Park tem um espelho na frente do outro. A gente se olha e sente a possibilidade do infinito. 
        Peguei minha simpática camerazinha e fui lá fotografar.
              O mais estranho é que as pessoas simplesmente faziam de conta que eu não estava lá... só teve um que fez uma cara meio azeda, mas não reclamou... Olhei pra ele e disse em perfeito miamês...  luc yo estoi fotografing zi infinito... luc el infinito! Ele nem piscou... Acho que era surdo ou polonês, talvez turco! In Miami todos hablan miamês... aliás, és un linguajar sensacional! Espantuglês...  ou esportuglês... depende do teor de latinidad del falante.
     
                                  I saw zi infinito in the mirror en Miami


          O infinito... esse conceito incrível, mas que fica logo ali, como dá pra ver nas fotos..
        Nessas fotos a gente consegue contar o número de vezes que algum elemento se repete.  É mais ou menos dez. Caramba o infinito é dez!!! Veja só, contei dez cabeças do cara com brilhantina  (alguém se lembra da brilhantina??? Pois é. Achei um cara com brilhantina em Miami!!!)

o infinito... aqui pertinho...
mas de repente ele se desmaterializa num borrão. Nessa foto o infinito se dividiu em vários pedaços.  

Vários infinitos??? 
Fotografei vários infinitos??????

        Ao contrário do que os matemáticos que inventaram o cálculo integral acham, com suas fórmulas complicadíssimas, acabo de demonstrar que o infinito é um borrão!!!

                                                 Um borrão pequeno!
             Normalmente quando a gente pensa no infinito, logo imagina algo enormemente gigantesco. Mas existe também um infinito enormemente mínimo. Nas fotos ele é simplesmente uma coisa, uma coisa estranha, disforme.

        Aqui dá pra contar nove testas, depois um borrão e mais duas manchas que devem ser mais duas testas, mas o que impressiona é a confusão no lado direito do infinito...  Lado direito do infinito??
      




  mas afinal... onde fica o começo do infinito? 

      e onde começa o começo do infinito? 



Nas minhas fotos o infinito começa na cabeça das pessoas!!!!



esse aqui é o da cara meio azeda
Vejam que engraçado, o sujeito que se incomodou com as fotos ficou só com seis cabeças... mas não se transformou no borrão infinito!

Muito se discute se nosso universo é infinito. Uma boa parte dos físicos de hoje afirmam que nosso universo é finito e que tem sei lá quantos bilhões de anos luz de tamanho. Bilhões de anos luz. Espantoso!

Espantoso é que, assim que alguém falou que nosso universo é finito, já aparece a pergunta... mas então, o que existe além do nosso universo?

                             Com certeza deve ser um borrão!!!

terça-feira, 7 de abril de 2015

MOSQUITO NO OLHO

                         Apenas para distrair minhas simpáticas e elegantes leitoras e leitores (também simpáticos e elegantes), coloco uma estoria bem curtinha, para vocês matarem saudades de meus edificantes textos. Isso se passou há muitos e muitos anos... eu e meu velho amigo Jorge Bodanzky estávamos....



MOSQUITO NO OLHO DO OUTRO É COLÍRIO


            Estávamos batendo papo junto à janela da sala do apartamento onde eu morava com meus pais. Tínhamos uma linda vista para toda zona sul de São Paulo. Nossa diversão era pegar o binóculo e admirar lugares muito distantes, como a Cidade Universitária e conseguíamos até ver os aviões pousando na pista do aeroporto de Congonhas. O prédio era um dos primeiros edifícios de apartamentos construídos nos Jardins... uma verdadeira torre de observação no décimo quarto andar.
            Estávamos lá curtindo aquele visual quando de repente o Jorge reclamou que um bicho tinha entrado no olho dele.
            - Ai meu olho! Ai ai ai! Entrou um bicho!!
            - Que bicho?
            - Ah, sei lá, deve ser um mosquito! Sei lá que bicho é... mas está no meu olho. Olha aí!
            - Espera aí, vou ver se consigo enxergar.
            - Pô, vai logo! Está entrando lá pra dentro...
            Eu fui correndo buscar um lenço. É, isso mesmo... todo mundo usava lenço, o que aliás era uma bela porcaria, a gente assoava o nariz e depois guardava o lenço cheio de meleca no bolso. O Jorginho estava muito aflito, mas eu não conseguia ver nada. Arregalou o olho, eu tentei virar a pálpebra, e passar a pontinha do lenço, mas era impossível. Ele não parava, não deixava eu fazer nada e ficava reclamando. Nessa hora minha mãe, que acabara de entrar, mandou ele se abaixar, e resolveu tentar achar o tal bicho, mas ela enxergava mal, apesar da recente operação de catarata. O Jorge foi correndo até banheiro, lavou o olho, pingamos colírio... mas, segundo ele, o bicho continuava lá.
            - Olha, Jorge, às vezes acontece isso, vem um bicho voando bate no olho da gente e faz um machucadinho. O olho é muito sensível e a gente fica achando que tem alguma coisa, porque o lugar onde o bicho bate fica irritado.
            - Não, gente, eu tenho certeza que tem uma coisa... eu sinto que se mexe.
            - A aflição dele era muito grande. Minha mãe, que adorava meu amigo, resolveu ligar para um grande oftalmologista, que tinha consultório no mesmo prédio onde era o do meu pai, falou com a enfermeira, e conseguiu que o renomadíssimo Dr. Celso, atendesse o meu amigo...
            - ...mas vocês tem que que chegar aqui em quinze minutos, senão o doutor já não vai estar.
   Saímos correndo... correndo mesmo... apanhamos um táxi e conseguimos sermos atendidos pelo melhor oculista do Brasil, que nos recebeu muito simpaticamente, olá Dario seu pai eu encontro todo dia e como vai sua mãe a operação dela foi um sucesso... e então jovem, você foi atacado por um poderoso mosquito?... 
                  - Não sei se é mosquito, mas está dentro, lá atrás! eu sinto ele se mexer!
            - Calma rapaz, não precisa ficar aflito, vamos dar um jeitinho nesses seu lindos olhos...
            Devo fazer um pequeno parêntesis, para falar dos olhos super azuis de meu velho amigo, que os usava para derreter os corações femininos com bastante frequência e eficiência, o que me irritava bastante quando nos aproximávamos de mocinhas afáveis ou paqueráveis.
            Bem, voltando à nossa ocular estória, o simpático Dr. Celso colocou o Jorginho sentado na cadeira das vítimas, ooops!... quer dizer dos clientes, e acendeu tudo quanto foi luz.  Fez ele revirar o olho para tudo quanto é lado, usou toda a tecnologia mais moderna da época e...
            - Olha, seu Jorginho, aqui não tem nada!
           O Jorge deu uma risadinha, meio desenxabida...
            - Mas doutor... eu... por favor olha mais, por favor, eu tenho certeza, é aqui, nesse lado, parece estar atrás. Sabe?...  uma coisa grudada atrás do meu olho... não é possível que não tenha nada! Aqui ó...!
            - Onde?
            - Aqui, nesse cantinho...
            -Senta aí, vou dar mais uma olhada...
            E dá-lhe, luzinhas, lentes de aumento, líquidos estranhos.
            - Realmente, meu jovem...  Posso te garantir que é impressão sua. Olha, pega esse colírio e vai pingando... Antes de casar passa!
          Eu havia ligado para meu pai, cujo consultório era no mesmo prédio, como já disse, mas estou repetindo para algum leitor um pouco distraído, avisando que iria levar a gente para casa.
            Agradecemos muito ao doutor Celso e subimos para encontrarmos meu pai. Mas o Jorge não parava de reclamar... Reclamou o tempo que ficamos na sala de espera...
            - Pô, Jorge, pára caramba, aí não tem nada! O maior oftalmologisra de São Paulo te examina, e não vê nada, é porque não tem nada! Que saco, hein!!
            Aí veio a assistente de papai, e deu umas três ou quatro receitas infalíveis, e contou algum caso escabroso de alguma sobrinha que acabou ficando cega, e da tia que ficou vesga, e da prima caolha... tudo isso para acalmar o coitado do meu amigo, que agora estava possuído por um profundo e aterrador mutismo. Aliás, nosso paciente não abriu a boca até chegar em casa, num curto percurso absolutamente silencioso, porque meu pai normalmente era bastante calado. Mas quando chegamos em casa, minha mãe toda ligadona, tinha ligado para todos envolvidos na pesquisa mosquital. Já sabia o que tinha acontecido e fez um monte de piadinhas, mas o Jorge só balançava a cabeça.
            Finalmente sentamos para jantar, mas o Jorge não queria saber de comer nada, e o jantar estava meio envolto pelo fantasma de um suposto mosquito, quando o Jorge gritou.
            - Ele esta´saindo!... Vou catar ele!!! e correu para o banheiro, e eu atrás carregando um guardanapo.
            Ele parou na frente do espelho, pegou meu guardanapo e...
            - Tá aquiiii ó! Não disse pra vocês?!Eu falei! Ficou todo mundo tirando sarro, mas olha aqui ó! Eu falei que ele estava dentro do meu olho!
            E lá estava, completamente destroçado, o coitado do mosquito que conseguiu se esconder de mim,  e da minha mãe. Mas a grande façanha desse insignificante díptero foi se esconder do famosíssimo Dr. Celso e seus ultra ultra sofisticadíssimos equipamentos perscrutadores.

            E o jantar terminou alegremente, com papai nos servindo um bom vinho para comemorarmos a captura do mosquito invisível!

quinta-feira, 5 de março de 2015

NA RIO SANTOS (parte2)

inaugurei a Rio Santos (parte 2)

          ...às minhas queridas e meus queridos leitores que porventura estejam distraídos, aviso para ler a parte 1, antes desta 


            Na manhã do dia seguinte o Professor passou às voltas com os cineastas, enquanto nós estudávamos as espécies já conhecidas de outras partes do litoral das proximidades e como faríamos para coletá-las.
            Naquela época, além da fotografia eu já me interessava muito por cinema. Tinha feito alguns cursos muito interessantes, e arriscava umas filmagens com uma velhíssima câmara 16 milimetros. Minha atenção ficou bem dividida entre as duas atividades, e quando eles entraram com seus equipamentos na sala improvisada como laboratório, fui lá bater um papo e mostrar as coisas que pudessem ter mais interesse.
            Mas de repente ouvimos os gritos do Professor nos chamando para mostrar algo numas rochas da costeira, cheias de ouriços do mar. Estava numa pedra um pouco mais alta e lá de cima pediu para  todo mundo chegar mais perto, espatifou um ouriço na rocha e disse...
            -Vejam só está cheio de ovas! Isso é uma delícia!!...
            ... e chamou os moços para filmarem como era divertido arrebentar os bichos na pedra, chupar as suas ovas, vivinhas da silva, para o espanto de uns e horror ou nojo de outros. Fez questão de mostrar alegremente a técnica correta de bater o ouriço no rochedo sem esmigalhá-lo,  de forma a expor as ovas, insistindo para os outros experimentarem o que, segundo ele, era um manjar dos deuses... e enfiava a boca sonoramente no ventre arrebentado do ouriço se lambuzando todo. Nossa colega estagiária, foi a única que se dispôs a realizar tal façanha... e também achou gostoso.
            Eu, particularmente,  detesto comer bicho vivo. Alguns anos depois fui parar na França em fazendas criadoras de ostras, e também não consegui comê-las vivas. Causa impressão, como dizem os italianos... Aliás lembrei de uma boa estória pra este portentoso blog!
            Depois do almoço demos uma descansadinha e ficamos às voltas com as filmagens. E nessas, lá fui eu de mascara de mergulhos, snorkel, e pé de pato, para surgir de um mergulho no meio do mar segurando uma bolacha marinha (uma espécie de ouriço do mar achatado), ou algum outro ser interessante. Mas quando a professorinha apareceu usando um mínimo fio dental, os moços esqueceram que eu existia, esqueceram as sabias explicações do Professor e saíram filmando tudo o que ela exibia... E o que ela exibia não era pouco!! Mistérios da oceanografia cinematográfica!!! (ou do cinema oceanográfico!!!)
            Após o jantar, antes das análises e preleções, o  Professor nos avisou que ele e os cineastas teriam que voltar para São Paulo, devido à alguma coisa extremamente importante. Ele iria com uma das “peruas”  Rural Willys com  o motorista. O professor Mario assumiria o comando da grande expedição, e nós deveríamos seguir todas as instruções que ele passasse.
            ... e nessa noite nosso querido professor sambista se esmerou e deu uma bela palestra sobre a biologia marinha, e o nosso litoral... Foi boa mesmo. Explicou um monte de coisas interessantes que devem estar gravadas nalgum lugar deste nosso planeta... espero.
            No dia seguinte, Mario,  estava preocupado porque  nunca tinha guiado nada além do seu próprio carro, e a Rural, com aquelas alavancas para a marcha reduzida e tração nas quatro era realmente um pouco assustadora.
            - Nem olhem para mim – disse o Marco Aurélio, meu colega estagiário – eu também... o maior carro que já guiei foi o meu Dauphine!
            - Tudo bem, deixa comigo – falei – eu já tive jipe. Não tem problema... quer dizer, não pode ter problema porque se acontece alguma coisa, o Mário é vai ter que dizer que ele estava guiando ou assumir a direção porque essa rural é chapa branca.
            - Tudo bem... é só você tomar cuidado, mas você sabe mesmo mexer nessa alavancas todas?
            - Olha, Mario... é a mesma coisa do que trocar de marcha. A reduzida do meu jipe só entrava com ele parado, então a Rural é mais fácil... Mas acho que não vai precisar nem reduzida, nem tração nas quatro.
            Bem... para encurtar a estória, no primeiro dia fomos até umas praias bem próximas, porque eu também não me sentia muito a vontade pilotando um carro oficial. Se dá uma esbarradinha, um risquinho que seja, é a maior encrenca... mil relatórios, que poderiam complicar para o Mário, que como falei era um carinha bem legal.
            Após o jantar abrimos uns mapas de navegação, que mostram muitos detalhes da costa... rios,  curvas de nível, algumas construções grandes que possam ser avistadas pelos marinheiros... são muito bem feitos, afinal a vida dos navegantes depende deles. Só não sabíamos se tinha estrada ou não, pois estavam abrindo a Rio-Santos, que nessa época era pouco mais do que uma picada no meio do mato. Estudamos, confabulamos e resolvemos nos aventurar até onde ia a estrada. Nosso objetivo era uma praia do outro lado da enseada onde deveria haver mar bem batido. Teríamos que calcular bem o tempo de ida, porque em princípio, gastaríamos o mesmo tempo para a volta, a não ser que... a não ser que...
            - Única coisa que não pode acontecer é quebrar o carro!
            - Ou cair o maior toró.. o que é bastante comum nessa região.
          - Olha gente com esses pneus lameiros e tração nas quatro, essa rural passa qualquer atoleiro. É além disso nessa época do ano não chove desse jeito. Eu vi uma previsão de tempo antes de sairmos de São Paulo e mostrava um período de tempo seco. Bem o negócio é ir com cuidado nos lugares perigosos. Isso deixem comigo. Êpa, agora falou o piloto!!!  Olha pela amostra de hoje ele se saiu muito bem. Mas aquele riacho estava fundo! Então, por isso que paramos e eu fui até a metade a pé. Nem chegou até o joelho, e esses carros tem o distribuidor colocado bem alto.  E o fundo do riacho estava bem firme, acho que jogaram pedras. Ah... só tem uma coisa...  se furar o pneu, alguém tem que encaixar a roda, porque minhas costas estão meio ruinzinhas... Ih! Lá vem ele com essas costas. É de dormir no macio... esse menino está precisando sofrer um pouco. Tinha que fazer exército para ver o que é bom. Dormir no chão. Tá acostumado com colchão de mola! Que nada, durmo num colchão ortopédico duríssimo. Pô meu, vai ver que é isso que te deixa assim.  Não,  meus discos são  moles. Só o disco que é mole?...Êêêê...
            Era mais ou menos o papo que rolava no escuro do quarto com dois beliches onde eu, o Mário e Marco Aurélio estávamos alojados. Não consigo lembrar das aventuras que o  Mário contou, por esse Brasil a fora. Ele e o Marco engrenavam num papo e eu ficava ouvindo misturando as estórias com os sonhos... e com as lembranças da lindíssima Sílvia, minha namorada na época, que era um ser absolutamente maravilhoso. Moça simples, simpaticíssima, educada... um doce de criatura e era de uma beleza absolutamente... surpreendente... sei lá.  Ela sabia de seu encanto, mas não era exibida, ao contrário, era um pouco tímida, o que a deixava mais mais mais ainda. Nas minhas recordações e reflexões sobre minha a vida penso que deveria ter casado com ela... Mas, hoje sei que não daria certo. Ela era muito... suave...  muito pacata... sorte a dela!!!
            No dia seguinte acordamos cedo, tomamos um café da manhã bem reforçado, enchemos a rural de vidros, formol, álcool, água, e mais uma boa quantidade de equipamentos, livros e partimos em direção à Paraty, que até então não  tinha acesso por essa estrada, que na nossa expectativa estaria completamente deserta.
           Esperamos um pouco para sairmos quando a maré estivesse começando a baixar, mas tínhamos que voltar lá pelas duas horas, que era quando a maré iria começar a subir pois não tínhamos a menor ideia de como estaria a estrada,  ou se teríamos que passar por praias ou riachos que enchem com a maré.
            E lá fomos nós...  com eu pilotando aquela Rural Willys cinza escuro, chapa branca, em pleno regime de ditadura militar... um veículo que não causava muita boa impressão. Havia dois equipamentos que eu sempre usava no litoral... um era a alpargata. Houve uma época que eram feitas aqui, as alpargatas Roda com sola de corda que eram ótimas para andar nas costeiras, podiam molhar e secar, sem enrijecer e escorregavam muito pouco. Além disso eram uma boa proteção contra cortes em cracas ou ferimentos por ouriços, que podem inflamar bastante. Nessa época já era difícil encontrá-las, mas vinham do Uruguai... na sola estava a marca Rueda! Ah... o outro equipamento era um bom chapéu de palha, os panamá são sensacionais, mas mesmo os tradicionais de palha trançada são ótimos porque ventilam bastante, e como eu esquento a cabeça por qualquer coisa...
            É, parece um detalhe sem importância, mas meu respeitável público vai perceber que até que foi uma boa...
            Bem, acontece que para nossa surpresa, já no começo de nosso trajeto,  percebemos que os lugares vilarejos onde havíamos passado no dia anterior e não vimos ninguém, agora estavam cheios de gente que nos observava muito interessadamente, e em alguns pontos chegamos a ser aplaudidos...      
          - Ei gente!! O que é isso? Vocês repararam no que está acontecendo?
            - Não. O que foi?  O carro está com problema? O que? Problema no carro? Vamos ter que voltar?
         Meus companheiros de viagem, absortos na paisagem deslumbrante, e nos mapas e tabelas e chaves de classificação, não haviam percebido a população toda enfeitada nos aplaudindo... principalmente porque eu achei aquilo muio engraçado e toda vez que tinha alguém na estrada eu buzinava e agitava meu chapéu de palha... para a alegria da jovem professorinha que sentava ao meu lado, estava se dedicando ao joguinho da sedução, passando a mão na minha perna, se encostando... jogando olhares, talvez perturbada, porque como eu era apaixonado pela deslumbrante Sílvia, não fiquei babando ao vê-la desfilar seu lindo corpo, levemente, mas muito levemente encoberto pelo fio dental...  No banco de trás, separados por caixas de isopor, livros, mapas e...  estavam o Marco Aurélio e a Lilian, mais sérios. Ela começou se ligar na situação enquanto que o Marco, um rapaz estranho, tinha a postura de alguém bem mais velho, mas muito sarcástico, achava perigoso eu brincar, que a gente não sabia o que podia acontecer se alguma autoridade de verdade resolvesse nos “enquadrar.”
          ... imagina se aparece alguém do exército ou da polícia mesmo, aí quero ver você ficar fazendo tchauzinho.
             Chegamos numa parte da estrada aberta recentemente, e que tinha muitos trechos em obras, principalmente quando passava em cortes nas montanhas. 
                E de repente apareceu uma faixa que atravessava de um a lado para o outro:  “A população da vila de *** agradece o governador do estado Fulano de Tal” pela abertura da estrada Rio Santos.”
            Em vários pontos havia uma faixa com os mesmos dizeres, mas com o nome do lugar escrito com outro tipo de letra, atravessando a pista.
            - Caramba é isso!  Estão pensado que a gente faz parte da comitiva. Devem estar inaugurando a estrada hoje. Aí, eu não resisti, e parei num lugar onde parecia um sub projeto de futuro barzinho... sob os protestos dos dois no banco de trás, fui lá perguntar se tinha cigarro, ou algo parecido. O cara ficou meio desconfiado, carro oficial, alpargatas, chapéu de palha... perguntou afirmando se a gente era de São Paulo... é a gente está só de passagem. Mas aí um velho meio bêbado  contou que realmente rolava uma comemoração por que era o dia em que as duas frentes de trabalho, a que vinha de Paraty e a que vinha de Angra, tinham se encontrado, e pela primeira vez  era possível ir por terra do Rio até Santos! Voltei pro carro...
            - Olha turma! Essa podemos contar para os nosso netos! Estamos inaugurando a futura Santos-Rio... Sabem lá o que é isso?! Deve ter gente aqui que nunca viu um automóvel...
            Mas continuamos nossa viagem, por aquela estradinha, onde realmente só dava para passar caminhão, trator, jipe ou.... uma rural.
            Paramos em algumas praias e costeiras. A sensação de sermos dos primeiros a passar por lugares como aqueles realmente era demais.                    Bem... Aí chegamos num trecho impressionante, era um corte gigantesco numa montanha, uma subidona cheia de pedaços enormes de rochas, onde algumas máquinas haviam aberto uma trilha pela qual mal dava pra passar um carro. Quando chegamos no alto do morro divisamos a cena espetacularmente maravilhosa, daquela baia espetacular, e uma praia mais espetacular ainda, onde havia uma bela casa. Descemos do carro para estudar a situação.
            - Vejam, do lado de cá tem um costão e um riacho,. Talvez tenha um mangue. Vamos entrar lá? Boa!
            A estrada passava pela praia, mas desviamos por uma picada e paramos perto da super casa, na sombra muito convidativa de uma enorme árvore.
            Assim que paramos veio um jipe e desceram dois caras com revólveres na cintura, dizendo que não podíamos ficar lá, e... bem, não vou contar o papo meio surrealista, porque quando eles perceberam que era carro oficial ficaram meio perplexos. Entraram no jipe, foram até a casa e voltaram com um cara que se apresentou dizendo que lá era casa de Dr. Sicrano da Costa Almeida Mendonça Macedo Fulano Prado ... e foi recitando os sobrenomes quatrocentões, diretor da Tv sei lá qual.                           O Mario explicou o que estávamos fazendo e que além disso eles não tinham autoridade para impedir alguém de ficar numa praia, que se eles insistissem ele colocaria no relatório que tinham sido atrapalhados pelo Dr. Sicrano Lista Telefonica da Silva. Demos uma olhada no riacho que vinha pelo meio das pedras... o lugar era bonito mas muito modificado, sem interesse para nós, que saímos depois de dar uma passeadinha na praia e uma descansadinha... só para deixar os caras em pé (babando com o fio dental da professorinha) esperando a gente ir embora.
            Finalmente chegamos no lugar previsto (hoje eu acho que ficava nas proximidades da Usina Nuclear), uma pequena praia de mar mais batido, como era de se esperar pela posição geográfico, onde realmente achamos um monte de conchas de tudo quanto é tipo de bicho vivo e morto. Paramos o carro numa sombra e depois de coletarmos, já tentando classificá-los, enquanto fazíamos um bom lanchinho, mas de repente..                          Buum! Buumm! Bumm!      
               - Caramba! que explosão!
        - É parece que a turma continua trabalhando... isso deve ser dinamite... Esperemos que não tenham dinamitado nossa estradinha! Êêê... vira essa boca pra lá.
            Mas estávamos concentrados nos nossos bichinhos até que eu falei que já deveríamos começar a voltar, Olha pessoal, passar por aqueles riachos e praias  de areia fofa com maré alta e de noite... !!!!
            E, na volta realmente não deu outra!!! Aquele corte na montanha onde mal passava um carro estava completamente atulhado de pedras enormes.... Totalmente impossível passarmos. Estávamos bloqueados.
             - Hii, cacete!!! Dinamitaram a estrada mesmo!!!
            - Nooossa! E agora?!
            - Olha eu vi gente naquele acampamento com máquinas paradas.
            - Tem certeza!
            - Vi sim... de qualquer maneira se não dá pra ir pra Angra o negócio é voltar. Aí a gente acha os caras, quem sabe eles dão um jeito.
            Agora escrevendo para meu portentoso blog, lembrei que fiz uma foto de um dos valentes participantes, coçando a cabeça, em pé na frente da rural. Vou procurar...
            Tivemos sorte que os trabalhadores estavam ainda arrumando umas coisas, um deles ainda falou.
            - Puxa! Se os senhores tivessem avisado que iriam voltar, a gente não dinamitava!
            - Foram bastante camaradas e se dispuseram a levar duas máquinas que rapidinho abriram uma passagem para nossa heroica excursão que participou da épica  inauguração da Rio-Santos!!!
            Ah.. antes de terminar a narrativa de tão trepidante aventura, tenho que contar que na volta as faixas estavam viradas... acho que a comitiva oficial tinha passado na nossa frente na ida e na volta, então eu fiquei mais entusiasmado ainda.
            - Olha turma, realmente fomos os primeiros a passar por aquela estrada!!!
            - Inauguramos a Rio-Santos! Mesmo!!!
           
           
           



           

                       

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

NA RIO SANTOS(parte1)

o professor sambista



           
         Era o início dos anos de chumbo, um período ruim da nossa história principalmente para jovens idealistas que acreditavam... acreditávamos... num monte de coisas e víamos as esperanças serem demolidas uma a uma. No final de 68 os militares aplicaram o AI-5, que exterminou completamente qualquer oposição democrática. Acabaram as assembleias, debates e até atividades culturais dentro do ambiente universitário, o que me levou a perder contato com amigos e colegas de outras escolas da Usp.
         Com exceção da fotografia, parei com todas atividades que não eram relacionadas com a faculdade e me esforcei o máximo para obter boas notas e conseguir uma bolsa de estudos... e consegui uma bolsa para fazer pós graduação e tese de mestrado em zoologia.
         O departamento de zoologia ocupava a metade de um dos dois edifícios mais antigos da lindíssima cidade universitária, cheia de prédios modernos lindos, áreas de preservação e alguns jardins maravilhosos como os do departamento de botânica. Era um prédio tradicional em forma de U, de dois andares, corredores larguíssimos com portas, janelas e pé direito muito altos. Os corredores abrigavam um  museu de zoologia, com armários, esqueletos, animais empalhados, vidros com espécimes conservados em alcool, numa das paredes havia uma gigantesca sucuri empalhada. As janelonas iluminavam bem o espaço e mostravam a linda e abundante vegetação que cercava o prédio.
         Era um ambiente agradável, onde os  professores mais velhos eram muito simpáticos e afáveis, num contato bastante informal com os mais jovens e com os bolsistas, que levou a formação de amizades e até casamentos. Foi aí que conheci o professor Sérgio, um pouco mais velho do que eu e que foi um dos melhores amigos que tive na minha vida. A minha primeira mulher, mãe de meus dois filhos mais velhos, era bolsista no andar de cima, ocupado pelo departamento de fisiologia animal.
         Um belo dia o Sergio disse que gostaria de me indicar, juntamente com mais outros bolsistas e uma jovem professora, para participar de uma expedição para coletar espécimes de um trecho do litoral do Estado do Rio, que seria alvo de profunda transformação devido à construção da Santos-Rio. Era organizada pelo museu de zoologia da secretaria de agricultura, cujo diretor, um compositor popular  conhecido, havia convidado elementos da Usp, com objetivo de por fim a um litígio acadêmico-burocrático que já durava um certo tempo.
         Depois de algumas reuniões embarcamos eu a professorinha, e os dois colegas, numa rural da secretaria da agricultura, pilotada por um simpático motorista que conhecia o Brasil inteiro, para uma trepidante viagem até as proximidades de Angra dos Reis. Trepidante não... na verdade era extremamente chacoalhante, uma verdadeira tortura para quem como eu tem uma coluna vertebral um tanto problemática, que quase desmanchou nas estradas rudimentares da época.
         O local que servia de base para nossas atividades era uma grande casa alugada, afastada da cidade cujo acesso passava dentro de uma  escola da marinha de guerra. Angra era uma cidade pequena, mas movimentada, que tinha duas características interessantes... passava um trem, com locomotiva, vagões, por dentro da cidade. E a outra característica era a espécie de fralda que os cavalos foram obrigados a portar, para evitar que o cocô emporcalhasse as ruas todas calçadas com paralelepípedos.
         O professor sambista era bastante famoso, por suas agradáveis composições e... pela sua chatice.
                ...na primeira noite após o jantar, ele nos recebeu com uma má vontade um tanto quanto explícita e reuniu todos os participantes para explicar qual era o objetivo dos trabalhos. Além de nós havia mais dois jovens biólogos que trabalhavam no museu de zoologia, um motorista e dois cineastas que estavam fazendo um filme sobre a região... um deles eu já conhecia, de um curso que eu frequentara, sobre filmes documentários.
          Ele nos explicou que, com a construção da rodovia Santos-Rio o litoral provavelmente seria bastante afetado, e nossa função era coletar e  catalogar, a maior quantidade possível de tudo quanto era bicho que a gente achasse nas praias e costões... que devido a falta de estudos a fauna era quase completamente desconhecida...  e assim conseguiríamos preservar algo que provavelmente desapareceria. 
         Achei que as criticas dele eram bastante procedentes, uma vez que as pesquisas científicas aqui no Brasil sempre foram feitas com grandes dificuldades. Enquanto ele explicava como iríamos trabalhar, me passou na cabeça... fiquei imaginando como faríamos essa coleta... fiquei pensando que como ele entende de estatística provavelmente tem algum um meio de organizar nosso material de uma forma quantitativa. 
            Terminou suas explicações e antes de encerrar fez a tradicional pergunta:
           - Está claro? Alguém tem alguma dúvida?
         Houve alguns  comentários, mas na minha cabeça eu estava diante do cara que havia pedido um tratamento matemático para aprovar minha bolsa, e pensei que realmente ele poderia ter alguma solução para o aspecto quantitativo, isto é, se deveríamos anotar a quantidade de espécimes coletados... e como deveríamos fazer. Então pensei um pouco e falei...
         - Bem, professor... eu fico imaginando nossa coleta, aí eu gostaria de saber se... Essa nossa coleta... ela vai ser apenas qualitativa ou se faremos algum tipo de análise quantitativa....               .            
         O cara ficou furioso!!! Se inflamou todo e começou me atacar... que eu era pretensioso, um típico recém formado que acha que é melhor que todo mundo só por que... por isso e por aquilo, mas que eu era igual ao pessoal da USP... No começo fiquei bastante constrangido e até assustado, mas ele desatou a fazer um vasto discurso meio sem pé nem cabeça, até meio ridículo, que deu tempo para me recuperar do susto e quando terminou com o dedo em riste, me encarando furiosamente...
         - Deu para o senhor entender?
         Eu respondi tranquilamente...
         - Não professor... o senhor falou muito... de umas coisas que não me dizem respeito,  mas não respondeu a minha pergunta. Eu só queria saber se dá para fazer algum tipo de análise quantitativa. E então...
         Fez-se um silêncio... daqueles...
         Ele ficou parado olhando para mim meio espantado, e eu continuei.
         - Mas acho que na realidade o senhor já respondeu. Vamos apenas  registrar a presença do espécime naquele local, certo?
         - É. Exatamente.
         - Obrigado.


         No dia seguinte, o professor passou o dia ás voltas com os cineastas, enquanto nós estudávamos as espécies já conhecidas de outras partes do litoral das proximidades e como faríamos para coletá-las. 
            Aí então, os cineastas e o professor....
           Mas não...
           ...não vou cansar meu adorável público...
          Na próxima semana vou contar uma aventura que tivemos na estrada....

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

CRONICA INTERATIVA e os caranguejos?? (parte2)

e os caranguejos??? (2)


e os caranguejos???? (2)

            Algumas pessoas não conseguiram colocar seus amáveis e sábios comentários no meu blog, então mandaram respostas por e mail.
            Todas disseram ser mais ou menos óbvio que nosso querido professor doutor Marco Justo Passos acabará cedendo às pressões e ofertas.
            Entretanto algumas leitoras disseram que seria muito bom se eu tentasse fazer um final mas nobre. Como as ficções acabam se tornando uma realidade - afinal como todos sabemos Clark Kent é o Super-Homem - percebo que depende de mim a sobrevivência  ou não, do mirabolante Saco do Escuro.
            Realmente, quando comecei escrever este despretensioso conto, a ideia era imaginar como se sente alguém que é assediado pelos promotores da corrupção. O título da história seria “Que se danem os caranguejos”
              Então lá vai o final projetado em sua primeira versão...

            Aos poucos Dr. Passos percebe que está sendo visto de uma forma mais distante e menos entusiasmada por uma boa parte das entidades que o apoiaram na defesa da preservação e tombamento da área. Muitas se colocaram contra a proibição de entrada de pessoas numa área a ser determinada pelos orgãos competentes.
            Os ataques feitos pelos grandes meios de comunicação e pelas redes virtuais às vezes chegam a ser um tanto quanto agressivos, o que começa perturbar a sua popularidade e principalmente sua tranquilidade. Chega mesmo a ter algumas dificuldades para adormecer, coisa que jamais ocorrera em sua vida.
            Então, um belo dia aceita falar com um representante da International Society para a Preservação do Saco do Escuro (IS-PSE), que há tempos insistia numa entrevista para mostrar detalhes do projeto, para estudar modificações poderiam ser feitas, com a finalidade de evitar possíveis danos ao Saco do Escuro. E durante a entrevista o digno tentador chegou a uma oferta realmente irrecusável como agradecimento para o deputado Dr. Justo Passos ter...  tomar a decisão de  desistir da campanha devido ao pouco empenho dos ambientalistas, e reconhecer a grandiosidade do projeto... e...  silenciar... sumir...
            Segundo consta arrumou bom emprego num grande Instituto Oceanográfico na Flórida, onde poderá desenvolver suas pesquisas sobre crustáceos de regiões brejosas.
            A IS-PSE é nomeada tutora ambiental, numa manobra no Congresso, que institui na legislação esse  estranho tipo de atividade preservacionista.  A área continua sendo de preservação ambiental e a entrada é permitida apenas para os, assim intitulados, conselheiros tutores da IS-PSE, e pelas pessoas por eles autorizadas. Os conselheiros são donos, diretores presidentes de grandes empresas, príncipes sultões emires reis do petróleo árabe, super esportistas especialíssimos,  milionários investidores... Passam férias temporadas fins de semana nas acomodações absolutamente nababescas, onde tudo é permitido. 
            Para evitar sequestros,  pirataria e outras barbaridades criaram um esquema de segurança sofisticadíssimo. Ao que parece há um satélite especial para isso, controlando uma verdadeira frota de drones de observação contínua e combate do Saco Escuro e seus arredores. A empresa foi autorizada contratar o número de seguranças que achasse necessário para garantir a integridade do local e dos frequentadores. Dadas as condições especias da área administrada  pela empresa internacional,  estrangeiros não precisavam de passaporte ou visto de de entrada.
            Na última entrevista que nosso  ex-deputado concedeu,  quase ocorreu um tumulto quando a repórter de uma revista internacional perguntou...  
            - Mas diga Dr. Marco Justo Passos... o senhor não estuda mais os Gilmarius taffarelicus?
            A resposta veio rapidíssima...
            - Ora... quer saber?!... Que se danem os caranguejos!!!
                                                           ... FIM...  

OU....                                    NÃO NÃO NÃO!!!!

... tomado por um ataque de edificante otimismo, resolvi  escrever uma versão um pouco mais refinada.
            Vou começar contar o que aconteceu logo depois que o deputado Dr. Passos se irritou com o representante do IS-PSE e o despachou de seu escritório recusando uma oferta tentadora... muito tentadora...                
          
          Assim que o ilustre emissário saiu, Marco sentou em sua confortável poltrona de couro e ficou pensando... pensando.  Com certeza já fora fisgado pela gorda isca que lhe fora oferecida.
            - E agora... o que fazer?... realmente com essa grana ajeitaria minha vida. Mas com que cara que vou ficar,  desmoralizado alvo de ironias ofensas agressões, rico mas totalmente desprestigiado vou ter que mudar de país quem sabe morar em Paris é pode ser não não posso aceitar mesmo no exterior dá pra fazer cada viagem vou ter que mudar de profissão... mas não precisar trabalhar dá para viver bem o resto de minha vida.... e assim sua mente entrava num turbilhão de dúvidas. Não não posso.... a gente tem que ter princípios.
            Porém....  De repente as coisas pararam completamente. Não se ouvia mais falar do assunto que saiu de todos os jornais e revistas e aos poucos sumiu até da internet. Para a angústia de Marcos que realmente estava extremamente perturbado, principalmente agora, apenas  silêncio.. silêncio nos meios de comunicação silêncio no seu telefone silêncio na câmara...
              Até que um belo dia...
            Um incidente  um tanto confuso no Saco do Escuro, envolvendo quatro ou cinco barcos de recreio,  foi parar em todas as manchetes, jornais, redes sociais e passa a ser alvo de tudo quanto é especulação e boato.
            Ao que parece cerca de vinte trinta quarenta baladeiros milionários resolveram organizar uma festinha  de fim de semana em seus iates no tão famoso e misterioso Saco do Escuro. A versão mais verossímil da história é que havia dois  barcos enormes e outros dois um pouco menores mas todos luxuosíssimos caríssimos moderníssimos ancorados numa pequena baía bem ao lado do Saco do Escuro. Uma lancha menor serviria para fazer o translado dos ocupantes e de todos equipamentos para a pequena “Rave”, som, fogões, barracas para comidas e bebidas, ao que parece levavam até barracas de camping para...
            Dizem que eram empresários ligados à industria petroquímica, e no meio deles havia um triliardário árabe que veio com algumas de suas inúmeras mulheres, um pop star rockeiro colecionador de veleiros famosos e.... a modelo mais formosa, o tenista mais rico, o presidente de uma liga de futebol com seu namorado centro avante, o dono da Exxon, o dono da Bell, o dono da Boeing e... os donos de tudo com todas suas fabulosas amantes... eram só a turma mais rica do mundo.         
     Mr. Dasilva (sic) um brasileiro (para orgulho da nossa pátria), comandava a expedição. Era um grande navegador, campeão de uma porção de regatas oceânicas, entre elas a  famosa  America’s Cup, onde competem os veleiros mas hightech... 
            .... Mr. Dasilva escolheu um velho marinheiro caiçara, o  mestre Tatão, que sempre fazia parte de suas tripulações, para ficar no leme da lancha do translado.  Nas duas primeiras viagens, com  esse velho lobo do mar pilotando cuidadosamente pelo labirinto de rochas que cerca o Saco do Escuro, tudo correu bem.  Mas na terceira viagem, um dos super hiper milionários, encanou de assumir o comando para se exibir para sua linda namorada, e o barco acabou esbarrando na ponta aguda de um rochedo. A sorte é que o rasgão no casco foi pouco acima da linha d’água, e conseguiram chegar até  a praia,  apesar do princípio de pânico que se instalou. Mas o barco ficou impossibilitado de navegar.
            A partir desse momento, instalou-se uma certa confusão e os participantes começaram a discutir se deveriam ou não desembarcar utilizando os botes salva vidas infláveis. O sultão e seu amigo ministro da economia de um grande país europeu queriam chamar um ou dois helicópteros, mas acabou prevalecendo a vontade do comandante  de desistir da festinha que acabou rolando num enorme Spa.
            Mas o fato vazou para imprensa por causa de algumas mensagens enviadas pelas redes. A coisa foi até motivo de chacota em alguns sites provocadores...
            Bem vou chegar logo ao ponto que deve estar preocupando meus preocupados leitores (e leitoras...).É o seguinte... 
           ...nosso caríssimo Dr. Passos é novamente procurado por emissários da IS-PSE e é convidado para uma reunião com o príncipe árabe Ibn***.
            No dia hora local combinados avisou alguns amigos e familiares e dirigiu-se ao local achando que o tal príncipe iria buscá-lo com uma limousine branca cinematográfica. Quando chegou lá, havia simplesmente um taxi que o levou a um apartamento nos Jardins. O percurso foi muito rápido, se é que existe algum percurso rápido em S. Paulo. Mesmo assim ele tentou observar se estavam sendo seguidos e na terceira vez que olhou para trás o motorista riu, dizendo para ele não se preocupar e deu um cartão do príncipe com o endereço, telefone, email onde estava escrito “welcome to IS-PSE Dr. Passos”.
            Era um prédio normal, com o habitual jardim na frente, uma guarita, com o porteiro escondido, que somente abriu o portão depois de todos os processos habituais... tudo muito normal... Por favor Dr. Passos, o senhor está sendo aguardado, o elevador fica no fundo do salão.
            Foi atendido pelo próprio príncipe das arábias, que era um sujeito normal, bem moreno de bigode, usando uma roupa normal num apartamento normal sem tapete voador, sem a Sheerezade...  muito menos odaliscas com olhares faiscantes...
            - Muito prazer, príncipe Ibn ***...
            - O prazer é todo meu, Dr. Marco Passos, mas por favor, me chame apenas de Ali.
            - Ah, sim... o senhor fala bem o português... morou em Portugal?...
            - Não cheguei a morar lá, mas fui... tive uma namorada portuguesa e passei muitas férias viajando por esse país que tem lugares muito bonitos, e um povo muito simpático... além disso adoro Saramago... um escritor maravilhoso. Vale a pena estudar português só para ler seus livros... mas tem que ser em português, é claro.  Aceita um chá? Vivi um bom tempo na Inglaterra e.... são cinco horas...
            - Ah, sim... claro, mas...   gostaria de algo gelado antes, seria muito...
            - Um suco? Gosta de cupuaçu?
            - Oh.. ah... sim  claro... cupuaçu é uma delícia.
            - É meu suco predileto... Maria! Maaaaríííaaa!
            Enquanto esperavam o chá e o suco, sentaram-se e...
            - Bem, professor, vamos ao assunto...
            -Sim claro eu tenho pensado muito... mas essas ofertas que os senhores me fizeram... realmente...
            - Desculpe interrompê-lo professor, mas gostaria de pedir desculpas pela forma grosseira com a qual meus assessores estiveram a abordá-lo. Eles pois não imaginaram que o senhor é um homem que defende com brios os seus princípios.
            -Bem, eu acho que...
            - Pois o senhor tem toda razão neste caso, professor!
            - Como? Mas a  International Society então...
            - Por favor professor ouça o que tenho para lhe dizer sobre todo esse processo, que acabou a radicalizar-se sem nenhuma necessidade. Vamos zerar tudo que se passou e gostaria que o senhor soubesse que tenho certeza que o senhor vai querer colaborar com nossos projetos...
            - Veja bem, príncipe... quer dizer, senhor Ali... recebi umas propostas realmente tentadoras, mas eu não posso contrariar meu... eu tenho que respeitar as pessoas que me apoiaram... o dinheiro não...
            - Ora professor... o senhor tem razão... já lhe pedi desculpas pelo desrespeito com que... olhe essa tentativa de... isso foi um facto lamentável. Insisto... por favor me ouça, pois...  Eu sou totalmente a favor da preservação do Saco do Escuro!!! Deve ser mantido como  um verdadeiro santuário... mas que nome... Saco do Escuro... parece um chiste!!
            - É, o nome é realmente engraçado...  Mas então o que o senhor pretende...
            - Veja professor, esse incidente nos fez mudar muitas coisas... eu e meu tio o Emir*** estávamos lá. E também provocou a desistência de várias pessoas que portanto acham não valer a pena ter que passar por lugares tão perigosos. Afinal esse nosso planeta tem inúmeros lugares paradisíacos.. lugares menos... eu diria, menos agressivos, pois. Portanto só participarão das atividades nesse local pessoas preparadas e compromissadas com a total preservação e segurança... segurança do local e das pessoas frequentadoras.
            - Agora. Veja bem, professor... o Saco do Escuro está totalmente desprotegido. Pode ser invadido por aventureiros de todo tipo. Inclusive pessoas irresponsáveis ou mal intencionadas... pode até se transformar em reduto de caçadores, ou bandidos, traficantes... terroristas...  Afinal lá é próximo de centros turísticos, e até algumas cidades importantes.
            
            Bem...  para não aborrecer meus inteligentes leitores e leitoras vou lhes apresentar logo o final edificante deste memorável conto...!!!
            O tio do príncipe Ibn *** resolveu aplicar um pouco dos seus bilhões de petroeuros na criação do moderníssimo Centro de Estudos Ambientais do Saco do Escuro. Uma instituição voltada para os estudos mais profundos sobre as regiões litorâneas que como sabemos são importantíssimas para a vida nos oceanos. Instituição essa equipada com o que há de mais aperfeiçoado no campo da oceanografia e biologia marinha. E para dirigir essa glória da ciência, quem?... quem?....
               ... e assim o nosso Dr. Marcos Justo Passos foi escolhido para ser o diretor.
            E no Saco do Escuro haverá também um  Spa, para os conselheiros desse Instituto, que quiserem buscar tranquilidade numa área de lazer e convívio super hiper suntuosa, que eu deixo para a imaginação de quem lê essas muito bem traçadas linhas.. (porque nos modernos sistemas eletrônicos as linhas são sempre muito bem traçadas...).
            Imagine então um lugar para o recolhimento e respeitosa meditação... um lugar onde nossos atarefadíssimos quaquilionários possam esquecer um pouco seus  mundos tão agitados e estafantes...