terça-feira, 10 de junho de 2014

A AULA DE ILUMINAÇÃO

                            A AULA DE ILUMINAÇÃO

      Eu já havia dado umas aulas no curso livre de cinema da escola que era considerada uma das melhores do Brasil na área das artes. Acabara de voltar de uma frustrante viagem de estudos na França, onde percebi que o universo científico acadêmico não era muito a minha vocação. Gostava do trabalho de campo, da coleta de dados, daquela coisa meio aventureira dos antigos naturalistas, que se embrenhavam no meio da natureza à procura de algo inusitado. Mas as estatísticas e as computações já estavam tomando conta. Qualquer trabalho tinha que estar recheado de estatísticas e fórmulas, matemáticas, bioquímicas ou biofísicas, o que significava horas e horas sentado numa sala.
      Uma outra atividade me fascinava. Era o mundo da fotografia e do cinema... a captação de imagem para contar estórias de um jeito que apenas eu  poderia fazer. Essa coisa sedutora que é a criação artística... única e eterna.
      Montei um pequeno laboratório fotográfico, juntei todas economias, comprei uma câmara de primeiríssima qualidade e comecei a fazer meus trabalhinhos, com uma certa dificuldade de encontrar um mercado que não fosse ligado à publicidade, da qual eu fugia por questões ideológicas.
      E foi assim, por causa de um conhecido de minha irmã, fotógrafo profissional, que me passou umas aulas de uma turma que achava muito chata, que comecei a dar aulas de fotografia num curso livre de cinema.
      Depois de uns dois anos como professor, acho que finalmente aprendi a dar aulas, coisa que parece fácil, mas na hora agá quando a gente tem que falar para um monte de pessoas desconhecidas... e dar um jeito de fazê-las entenderem, mesmo as que não querem, aí a porca torce o rabo, como dizia meu tio...
Bem, acontece que a empresa em seu processo de crescimento acabara de criar uma faculdade de Artes plásticas. Foi quando me convidaram para dar aula na faculdade, porque precisavam de professor com pós-graduação e eu já tinha mestrado. E aí a coisa ficou mais séria. Era curso registrado no ministério da educação, numa escola estruturada com departamentos, diretorias, diplomas concorridos e eu lá... professor titular.
Nos primeiros anos foi interessante, tive até que estudar, preparar aulas, bolar trabalhos atraentes, interligados com outros cursos... Além disso entre os colegas professores havia artistas plásticos muito bons, com os quais comecei a fazer amizade. Aos poucos passaram a frequentar minha casa, e me ensinaram muito sobre  artes. 
A escola continuava a se expandir. Abriram uma faculdade de comunicações e lá fui eu dar aula de fotografia em mais um curso.
O setor de fotografia e cinema ficava num estranho prédio projetado para ser  museu, estilo neo clássico, com dois andares de pé direito altíssimo. As aulas eram dadas no andar de cima que basicamente era um corredor com salas de aula, dos dois lados, e no fundo ficavam os laboratórios. Uma das salas perto dos laboratórios havia sido transformada em estúdio, com luzes e fundo infinito, que dava diretamente para o enorme corredor.
Um belo dia, entrei no estúdio para dar aula de iluminação para uma turma de que só tinha alunas, e sempre algumas moças eram bem bonitas. 
Eu nessa época era recém casado, e acabara de ter meu primeiro filhinho, mas apesar de não estar interessado em aventuras extra conjugais, não poderia deixar de reparar nas beldades que giravam ao meu redor. Nessa turma havia uma garota muito interessante, de uma beleza realmente rara. Era muito discreta, vestia sempre um jean e uma camisa social branca bem solta sem nada que pudesse chamar atenção. Usava constantemente óculos de aro grosso, falava pouco, e principalmente nunca praticou aquilo que eu apelidei de galinhagem esportiva, esporte predileto de algumas alunas (em geral as mais medíocres), que consistia basicamente em deixar o professor alvo a fim delas. 
A Bionda estava sempre acompanhada de uma outra colega, um pouco mais velha, que parecia uma espécie de tutora. Mas apesar de seu comportamento recatado e desse disfarce todo, eu, possuidor do olho fotográfico, percebia a beleza impar que se escondia por traz daqueles óculos e dos trajes um tanto quanto desleixados.
            Nesse dia, era a primeira aula de iluminação no estúdio. Para começar, falei um pouquinho da importância das luzes nos retratos... aquela coisa toda... E chamei aquela formosura para sentar num banquinho, enquanto mostrava os efeitos que cada tipo de refletor produzia,  sobre o rosto dela que pacientemente aceitou seu papel.
         Acende um, acende outro, estão vendo aqui o que acontece... olhem só a luz no cabelo.. o formato do rosto, a sombra. Às vezes eu me colocava no lugar dela para ela ver o que a luz fazia... e assim a coisa estava rolando. 
         Mas havia um certo zum zum na sala... alguns risinhos, comentários. Eu achei que, provavelmente já ia começar rolar fofocas. Naquela época, eu era uma cara até bonito e... o professor... aquela coisa toda...
         - Bom gente!...agora chega de explicação e vamos fotografar!... A gente começa fotografando a Bionda que já está aqui e depois outra toma o lugar dela pra ela também poder fotografar. E virei para a formosura dando minhas instruções:
           - Olha. Agora você vai tirar esses óculos, e... não vai ficar aí desabada no banquinho. Tem que dar uma levantada... uma empinada no corpo. E... olha para a câmara. Lá está alguém que você vai seduzir, jogando charme... é o cara que você quer conquistar. É para ele que você vai olhar. Dá uma caprichada...
         E aí o zum zum aumentou. Algumas riram. Mas a moça tirou os óculos, passou a lingua sobre os lábios e...
             - Tcham!
- Tcham!!!... Tcham, mesmo!!!   Uau! Uau!... 
Parecia que tocaram nela com uma varinha mágica.. 
E eu só pensando... Uau! Caramba!! O que é isso!!! Essa menina realmente é muito bonita!
Mas... me concentrei no papel de professor e comecei orientar a turma que fotografava, abertura, tempo... tripé.. faça assim, segure, vire... Mas confesso que fiquei um tanto quanto fascinado por aquela aluna que, sentada no banquinho, ia se divertindo muito enquanto fazia suas lindas poses para suas colegas, que também estavam bem risonhas. Era realmente de uma beleza, um charme... e eu ia dando minhas instruções, mostrando o efeito de cada luz...
Nessa época eu tinha um amigo músico, super paquerador, que sempre aparecia fim de minhas aulas, que tinham essa característica de sempre serem teóricas no começo e práticas na segunda parte. 
Era mais ou menos comum ele passar nas últimas aulas para irmos almoçar juntos. Dava uma olhada na sala, fazia um sinal e ia se enfiar no laboratório onde tinha um outro amigo que trabalhava lá.
             
            Nesse dia o camarada passa, diz oi e me chama para a porta.           
              - Caramba! Como está ficando chique esta escola.
- O que foi? Perguntei.
- Olha aí, meu!!!... aula de iluminação com a modelo mais bem paga do Brasil!!!
- O que!?? Que história é essa?? Essa menina é aluna!!!
         Aí o pessoal que ouviu começou a dar muitas risadas, e a moça olhava pra mim e só a balançava a cabeça... também rindo de minha cara de espanto.
          - Meu... ela é não se chama Bionda? perguntou meu amigo.
- É, isso mesmo... como você sabe?
            Então, cara ... se liga! É a Bionda Fiorentino. É o que dá... Casou, teve filho e foi morar no meio do mato.  
             - E o pior é que nem tenho televisão...


          A turma ria muito. Meu amigo foi dar uma voltinha e eu um tanto quanto desenxabido, ainda perguntei se era verdade. E era mesmo.
        Então pedi desculpa para a famosíssima Bionda Fiorentino, que estava aparecendo em tudo quanto é capa de revista, porque havia sido contratada para um papel importante na televisão
         Imaginem, minhas queridas e meus caros leitores... eu explicando para a super top model, como fazer para ficar bonita na foto!!!!

    *** Tal fato realmente se passou. 
           Muitos anos também se passaram. 
          Fiquei na dúvida se colocava o nome verdadeiro da linda aluna, que realmente se transformou numa atriz muito renomada. Atualmente não aparece muito, mas quando aparece, sua beleza ainda é notável. Acho que, pelo menos por razões éticas, teria que pedir licença para ela, o que seria bastante complicado.
        Achei melhor juntar o nome de duas atrizes italianas e inventei a Bionda Fiorentino... belo nome. Acho...
      Agora ao terminar de escrever, fiquei pensando... Alguns leitores deste meu blog são artistas, outros são ligados ao mundo das artes. Quem sabe...? Talvez.... 
          E se ela por acaso ler minha estória???... Será que vai se lembrar??? Vai gostar do texto??? 
           Eu realmente gostaria muito que tal fato ocorresse...